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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Roberto Nunes

setembro 25, 2011 Deixe um comentário

Nada era novo naquela nebulosa manhã de sábado. Fui acordado pelos vizinhos, pelas portas que socavam minha enxaqueca, pelos chinelos que faziam cócegas nos meus nervos, pelas risadas que cutucavam meu tradicional mau humor matinal. Afora nada, era um dia rotineiro, e com uma simplicidade, uma carga, uma força, um carma de naturalidade. A tv não exibia o mesmo programa de ontem à noite, o que era previsível. Fora do lugar, apenas as caixas a serem organizadas. Maldita hora em que resolvi me mudar, ainda sem entender o que me levou a escolher o décimo primeiro andar, numa tentativa inútil de escapar do barulho que aquele trânsito infernal de Botafogo causava. Sempre esperei que as coisas tomassem um rumo próprio, mudassem por si só, sem precisar serem forçadas, empurradas, esfaqueadas, como me esforçava pra que nada em minha vida se alterasse, por conta da minha total incapacidade de notar mudanças. Creio que justamente isso irritou minha ex-mulher. Não sei o que ainda me leva a crer nisso, mas cortar e pintar o cabelo e ainda esperar que eu repare – mais que isso, que eu elogie – já era demais pra minha inutilidade. Se ainda fosse só cortar, talvez eu até notasse. Lembro de todas as ocasiões em que meu pai trocou de carro, mas sei lá quais são as cores. Falando em carro…

E lá vem aquela vontade de fumar um cigarro… Sábado de manhã… Porcaria de costume de não ter dinheiro na carteira! Um cara como eu, que nunca fui assaltado, amedrontado na capital. Saindo do trabalho, lembro que há uma agência ao lado da portaria do prédio. À caminho de casa, julgo que o banco é tão perto que amanhã de manhã eu desço pra sacar dinheiro. Qualquer botequim tem máquina de débito.

Nesse ínterim, algumas nuvens se dissiparam e raios solares timidamente deram às caras. Já pude me livrar das cobertas, mas daí a levantar da cama… era demais! Resolvi me perder na vista da janela e lá estava uma mosca, que quis entrar pela veneziana em seu voo circular. Dentro de suas limitações, ela enxergava o alumínio – onde pousava – mas invariavelmente batia no vidro, que estava lá, e sua incapacidade não a permitia perceber. Ela queria escapar, indo e vindo. O que a limitava era algo tão simples… E como ela podia não se lembrar de como entrou? Flagrei-me imerso em seu mundo. Ela parecia cansada. Pousou no parapeito, de costas para mim. Ficou lá. Estática. E eu, livre das cobertas. Ela precisava de pouco pra se livrar desse suplício. Pra ela, era muito. Quando dei por mim, estava abrindo uma fresta na janela. Ela roçou as patas dianteiras e alçou voo. Nada de nuvens. Céu de brigadeiro.

Quando vesti a bermuda que estava dentro de uma das caixas, achei vinte reais. Pronto. As decisões só dependiam de mim.

Autor: @Abelheira.

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A culpa é nossa – parte 1,5.

agosto 27, 2011 3 comentários

Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2011.

Anteontem, a sociedade civil fluminense recebeu a notícia de que um subsecretário de governo do estado do Rio de Janeiro, ex-COORDENADOR do Lei Seca do município de Niterói-RJ, Alexandre Felipe Mendes, atropelou quatro indivíduos, dos quais um já tem sua morte cerebral confirmada. Numa sequência de atos que deveria envergonhar qualquer projeto de republiqueta, a já citada autoridade foi acobertada por policiais e colegas de trabalho, após ter recusado fazer o teste do bafômetro e realizando-o apenas doze horas depois, período durante o qual tudo aquilo que foi ingerido em termos de álcool pelo agente teve tempo de ser eliminado pela urina.
Tais atitudes nos revelam várias faces de nosso falido Estado Democrático de Direito.

O argumento do qual lançamos mão para a não-realização do teste do bafômetro é o de que não somos obrigados, ‘por lei’, a criar provas contra si. (Recomendo a leitura de textos para esclarecimentos. Ei-los:
http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5283/O-direito-de-nao-produzir-prova-contra-si-mesmo-Nemo-tenetur-se-detegere
http://advocaciapenal.blogspot.com/2011/03/direito-de-nao-produzir-prova-contra-si.html
http://www.conjur.com.br/2010-fev-11/direito-nao-produzir-prova-si-mesmo-positivado
http://www.parana-online.com.br/canal/direito-e-justica/news/330314/?noticia=BAFOMETRO+PL+22606+E+O+DIREITO+DE+NAO+PRODUZIR+PROVAS+CONTRA+SI+PROPRIO)

Espero que agora, com o caso em tela, toda a sociedade veja o quanto é importante nos submetermos ao exame para que a infração não se perpetue no tempo. Quem não deve não teme. Basta realizar o famigerado bafômetro – desde que o dispositivo esteja devidamente aprovado – e seguir caminho. Basta não ter medo. Alexandre Mendes desafiou a sociedade. Mais que isso, debochou. Fez escárnio. Não obstante o salvo conduto, preceito igualmente Constitucional, para o qual contamos com o serviço do @LeiSecaRJ, sempre dispostos a nos apontar o melhor caminho diariamente.

Outro ponto é o corporativismo do caso. Vejo o vinho ingerido como o que provocou a aceleração do automóvel e o corporativismo, como a morte do pedreiro – na mais plena certeza de que sairia impune. Testemunhas afirmam que Alexandre Mendes saiu da picape visivelmente embriagado, cambaleando e falando torto. Isso levaria um reles-mortal-pagador-de-IPVA à delegacia e às sanções penais e administrativas previstas. Porém, em se tratando de autoridade – a qual, inclusive, omitiu socorro às vítimas -, prevalece o acobertamento. Nesse ponto, o desafio, o deboche e o escárnio tomam jeito de formação de quadrilha, numa cena na qual palhaços rotos (como o Coringa de Batman, o Cavaleiro das Trevas) gargalham dos cidadãos numa mesa melada de cerveja, com cinzeiros esfumaçantes e cartas de baralho antigas. Oxalá, com a visibilidade que a mídia está dando ao caso, seja dado o correto e legal prosseguimento dos ritos processuais.

Lastimável que o protesto limitar-se-á a algumas centenas de tweets, papos de mesa de bar e temas transversais em algumas poucas centenas de salas-de-aula. Isso deveria ser o assunto de programas dominicais, matutinos, vespertinos, sem exploração sensacionalista. Deveria, sim, começar onde já citei e migrar para todas as camadas sociais, tomar âmbito nacional, porque isso nos diz respeito, fere nossa cidadania, mas não macula a imagem do governo. Deveria, mas não macula.

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A culpa é nossa

A culpa é nossa.

Sim, e é muito nossa. A culpa pelo Brasil estar como está é de todos nós. Dos outros, também, até porque os outros também somos nós.

Corrupção.
“Político é tudo ladrão.” Mas é um de nós. É igual à nós. Nasce, cresce, come, bebe, se reproduz e morre. Eles não vem do planeta dos políticos. São eleitos por nós, num processo eleitoral cuja lisura é elogiada por entes de todo o mundo.
“Não tem nada a ver um jogador de futebol/artista/celebridade querer ser político.” Discordo. Defendo que tem tudo a ver até pipoqueiro, o João do Gás, o Manoel das Coves, a Maria dos Butijões serem candidatos. O que é um ultraje são esses cidadãos serem eleitos. Socialistas de laptop Apple virão nos dizer que impedir tais candidaturas nos levaria a uma democracia parcial. Ora, não é isso o que temos de fato? Muitos artistas são os ‘puxadores de voto’, e levam à reboque pessoas igualmente despreparadas para legislar/executar/fiscalizar com votações por vezes pífias. Colecionamos exemplos dessa realidade desde que adotamos o voto proporcional.
Quando um candidato de uma igreja evangélica qualquer, mas poderosa, vai de culto em culto, de unidade em unidade, de estádio em estádio, de catedral em catedral, e o pastor ou bispo coloca a mão em sua cabeça, dizendo: “Esse é de Deus. Votem nele!” – e podemos transpor isso a bombeiros, médicos, engenheiros – estamos formando bancadas, as quais defenderão interesses de uma classe, muitas vezes elaborando projetos de lei custosos e inconstitucionais, não fiscalizando o executivo como deveria e, muito pior, negociando seus votos de acordo com o comando do líder do partido, da comissão ou da bancada. Não há voto limpo nas Câmaras e Congressos, ainda que em painel aberto.
Mas eles, como já disse, são um de nós. Nós, que nos calamos quando o caixa de uma papelaria nos dá troco a mais, que ultrapassamos em local proibido, que damos um tapinha na quilometragem do carro ao vendê-lo, que aceitamos balinha de troco, que furamos a fila do metrô, que sentamos nos assentos destinados a idosos e fingimos dormir, que adulteramos a quantidade de calmantes que o psiquiatra receitou. Qual é a diferença? Eles se candidataram a um cargo e conseguiram se eleger. Lançando mão do populismo, do poder, da popularidade, estão lá. Se eles são ladrões e ninguém faz nada, nós somos ninguém. Quem gosta de alguém taxando-lhe de malandro quando adulteramos os kms do carro de passeio? Uma provável reação seria uma briga, talvez culminando no ajuizamento de uma ação. O que nos impede, enquanto povo e cidadãos, de lançarmos mão do mesmo princípio contra os políticos? Se o Judiciário já está abarrotado de ações, a culpa não é nossa. Será que não é hora desse ‘poder’ decretar sua falência? Aliás, todos os ‘poderes’?

@Abelheira

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Um celular para César e um tablet para o povo

fevereiro 18, 2011 Deixe um comentário

O assunto de hoje, por encomenda da amiga @LGolba, é a diferença entre celulares, sobretudo os smartphones, e tablets. Decerto temos visto pessoas confundido o que sejam cada um deles.
Por motivos que não quero discutir aqui, quem mais está provocando essa celeuma é a Samsung, fabricante de smartphones (Série S) e de tablets (Série Galaxy). E aqui começamos a separar as coisas. Já vi pessoas chamarem o smartphone Samsung S de tablet, inclusive etiquetando o próximo (Samsung S2) como “o tablet de quem faz coração com as mãos.” Risadas à parte, como já disse, toda a série S é de smartphones. São aparelhos celulares com recursos, como a série iPhone da Apple.
Os tablets, como o Samsung Galaxy, o iPad (da Apple) e o futuro Xoom (da Motorola) não são smartphones, embora cumpram com o papel de celular com a instalação de softwares de comunicação. Tablets são uma nova geração de gadgets, compostos de uma tela touchscreen (sensível ao toque) e gerida por um sistema operacional – a maioria são o Android, da Google, presente nos tablets da Samsung; e o iOS, encontrado no iPad. Agora, os tablets contém o iPad e o Galaxy. Não vale chamar o Galaxy de iPad fake da Samsung.
Vou me furtar a comparar os tablets.
@Abelheira

Traçantes horizontes – Parte II

janeiro 22, 2011 3 comentários

Bem, o post anterior é datado de ontem 21/1/2011.
A segunda parte foi composta à mão. É uma sensação única escrever à caneta, vivenciando como sua letra reage aos pormenores de inspiração, hesitação, suór. A escrita manual traz à reboque uma intimidade sanguínea com o texto. Sem mais delongas, ei-la.

Lançou-se ao mar. Sem roupas, despida, insípida, sem gosto nem pensamentos subversivos ou anteriores ou rasteiros que fossem, que a desmirassem de sua órbita, que a desabitassem do que lhe fosse, com direito apenas a resplandecer seu alvo sorriso e furtar de sua pele temperatura – arrepiando-lhe nuca-pé -; num ato provido de azul e selvageria, rodopiando em seu próprio eixo, lançou-se ao mar. Fitou o horizonte, relativizou o infinito. Quis, por assim querer, tombar-se ao mar dantes mais um dia. Portando em seu âmago esperança, trajando invisivelmente a coragem de ser, ter, tocar, explorar o que se lhe nunca dantes foi, teve, tocou, explorou.
Desistida que estava de tão-só existir, anseava viver. Queria esclarecer ao mundo que cá pisou com sonhos outrora velados, ocultos quiçá pelo medo, certamente pelo medo da dor. O mar, o novo, tudo aprouvia-lhe em palato único, sem pares nos ares até então aspirados. Era tanta a imensidão, haiva tanto mundo que antiteticamente clareava-lhe o saber das pequenas coisas e da infinitude de felicidade simples, absoluta, objetiva e incrivelmente desconhecida.
À toda esta experimentação sucedeu-se não sensação, mas certeza de poder lançar-se ao mundo, de exercer sobre as cercanias o poder que sua beleza emanava, de sorrir sem culpar-se, fingir-se e sim poder-se, exercer-se, lançar-se.
Brilhantes eram os novos tons, muito aliás lhe apeteciam. Caminhos antes escuros lhe estavam abertos. Sentia nascer música à leste, crescentes notas aconchegantes, recoberta de ouro, sem qualquer sacrifíio à celebração, à ode que eram essas tais tintas honrosas de ornamentar tão bela tela.
Inimaginável tal e qual necessário emergir. Como seguir tão agora se o novo era norte? Sorriu-se por presentear a morte com um baú velho, pesado de tanto guardar velhas esperanças já cansadas de não serevem renovadas, fétido por velar emoções esquisitas em avançado estado de decomposição, com farpas que nada menos eram fraturas expostas pelas feridas que tateou.
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Nessa segunda parte, lancei-me ao desafio de concentrar-me no mesmo tema, sob iguais nuances, e dissertar. Ainda não sei se alterarei a ordem, ou se lançarei tudo num liquidificador – tarefa que se revela árdua. Porém, essa aridez revela desafios que me deixarão mais preparado no futuro, certo?
Outro grande desafio é se devo ou não dar um nome à personagem, claramente feminina, do texto. Algumas alcunhas me ocorrem, mas nada ainda me pescou.
Até a próxima!
@Abelheira.

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Traçantes horizontes

janeiro 21, 2011 Deixe um comentário

De há muito não via o mar. Houve assim, num rematado repente, um ímpeto descomunal de se ver lá, banhada e submersa, até por ignorar-lhe e sequer interessar-lhe se mais cristalinas eram as águas ou sua pele pueril. Teve de despir-se. Do passado, das sombras. Das sombras do passado. Viu-se envolta, ainda que só em imaginação (como se isso fosse só), numa túnica que outrora tanto a protegia, e que agora era uma ex-amiga da qual foi preciso livrar-se lentamente para que a dor não fosse tão patente.
Dos céus emanavam-se ventos frescos o suficiente para eriçar os pelos e mornos o suficiente para trazer-lhe segurança, certa de si como nunca dantes. Verdade seja dita: ela se deleitava de cada milímetro desse novo tempo. Ali, à beira-mar, eram apenas despida ela, sopro vento, verde mar, calmas ondas, branca areia. E isso era tudo. E isso lhe era tudo. Traspassar fases.
Era pele alva, alva areia, tudo um só. Era atemporal, posto que era o horizonte para uma nova pessoa. Parto indolor de uma fase cujo fato de simplesmente materializar-se já era o preâmbulo da bonança. Ela quis, deu-se de corpo e alma ao mar. Mergulhou tudo.

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@munikyrakell

dezembro 1, 2010 2 comentários

Faço minha mão não apenas descansar, mas que naturalmente marco minhas digitais em seu peito, intimamente no coração. Deixo-me em flagrante percepção que se justificam meus dias, na mais fortalecida certeza, que de mim, sem fim, a fim e assim irradia a sinceridade que emana seu sorriso e que é isso o que move meus dias, numa força motriz ininterrupta. Não só isso, concordo, mas isso não é só: pra mim, é uma fatia do meu tudo.
Abelheira