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Voto nulo ou voto válido? Eis a questão.

Desde que o voto direto para presidente da república se instalou no Brasil (1989), temos assistido a inúmeras demonstrações de desrespeito com a coisa pública, o que vem enfraquecendo a confiança do povo na democracia.

Tenho lido e ouvido nos últimos meses várias manifestações a favor do voto nulo como única opção, a única saída diante da fraqueza ideológica e da confusão programática a que os candidatos aos diversos cargos eletivos vêm nos submetendo. “São todos farinha do mesmo saco!”, dirão alguns. Mas será que são mesmo? Será que, dentre todos os candidatos, não há algum com idéias, pelo menos em parte, parecidas com as do eleitor? “O que adianta dizer uma coisa na propaganda ou no debate, e fazer outra quando assume?”, vem como resposta.

Qual o papel do eleitor? Votar? Não, não se trata apenas disso. A cada dois anos, o eleitor escolhe aqueles que o representarão nos poderes executivo e legislativo, mas aí é que começa verdadeiramente o papel do eleitor, que deveria passar a vigiar a atuação dos eleitos e cobrar bom comportamento.

Ah, mas eu não concordo com as idéias de candidato algum! Vou votar nulo, porque se tivermos mais de 50% de votos nulos, o resultado da eleição é invalidado, e novas eleições são convocadas, com novos candidatos!” – isto não é verdade. Uma eleição somente é invalidada em caso de fraude, impugnação, mas não porque mais de 50% dos votos foram nulos.

Mas vou votar nulo mesmo assim, porque não quero ter a responsabilidade de escolher, e o eleito não cumprir com o seu programa.” Por que fugir da responsabilidade? Isto tem um sinônimo: covardia. Outros mais sutis: conivência; concordância; complacência.

OK, então vou escolher algum candidato, mesmo que não concorde totalmente com ele. Mas ele não vai ser eleito, está mal nas pesquisas, então por que votar nele?” Não acredite em pesquisas, acredite naquilo que está em sua ideologia. “Não há candidato que pense igual a mim!” Claro que não, somos indivíduos! Cada um pensa diferente, mesmo que seja de forma parecida. “Ah, mas se meu candidato não for eleito, como poderei cobrá-lo?” Não interessa quem foi eleito, o eleitor deve cobrar de quem assumir, não importando qual bandeira tenha defendido, porque a partir do início do mandato ele deve servir à população.

Outra questão polêmica é o voto útil, que seria em muitos casos complementar à idéia do voto nulo. Tem sido defendido que não existe voto útil no primeiro turno. Eu discordo. Se existe um candidato que você não concorde de jeito nenhum que seja eleito, vote em outro que “roube” os votos daquele. Isto é melhor que voto nulo, que não muda o panorama de vitória/derrota de cada um dos candidatos, já que somente votos válidos são considerados.

Participação é a chave do processo democrático. Mas se a participação não se der no ato de votar, que pelo menos se realize na cobrança pela execução das práticas que atendam às necessidades do povo.

José Luiz de Almeida Junior

(A opinião aqui expressa não representa necessariamente a opinião de todos os integrantes do blog Sete do Bem.)

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Categorias:Uncategorized
  1. setembro 27, 2010 às 3:50 am

    Concordo plenamente, ótimo post

  2. RJP
    setembro 27, 2010 às 1:02 pm

    Zé Luiz, concordo em gênero, número e grau. Voto nulo n resolve, dá trabalho escolher candidato, e + trabalho ainda perturbá-lo, caso seja eleito, ao longo dos próximos 4 anos. Ninguém quer fazê-lo, e eu mesmo n faço muito. Farei + até 2014.

    • setembro 28, 2010 às 9:13 pm

      Que bom que mais um amigo também pense assim, achei que só eu!
      Mesmo que tenhamos preferências diferentes de candidatos, pensamos igual a democracia! []

  3. setembro 28, 2010 às 4:16 pm

    Zé,
    Não tem como levar pedrada. Nas eleições nacionais, votar nulo é o mesmo que se abster, que justificar etc… ou seja: é delegar para os outros uma decisão. Eu costumo dizer a quem vota nulo: “Então, não reclame!”
    Temos que votar naquele que menos se distancie de nossas convicções, sejam elas quais forem. Medo de errar? Ninguém nasce sabendo. Mas é só votando que se aprende a votar.
    A propósito: tem gente que pensa que eleição é futebol, e eleitor é torcida. Nada a ver. Se o “seu candidato” ganha, dependendo do que ele fizer, você perdeu. E mesmo que o seu candidato não tenha ganho, dependendo do que o eleito fizer, você ganha. Por isso, muito bem colocada a sua afirmação que devemos cobrar de quem ganhou, independentemente de “em quem votamos”.
    Um abraço!

    • zlzjr
      setembro 29, 2010 às 1:54 am

      Muito obrigado pelo apoio! Gostei muito das idéias

    • zlzjr
      setembro 29, 2010 às 1:56 am

      Muito obrigado pelo apoio!
      Gostei muito das idéias, analogias e explicações que acrescentou.
      Abraço!

  4. setembro 28, 2010 às 9:52 pm

    Zé Luis. Li o texto como prometido, contudo eu ainda me reservo no direito de votar em ninguém. Mas concordo com vc nesse ponto: A participação também passa pela cobrança e a melhor forma de cobrar, talvez a única, é denunciar os maus políticos e torcer para que os bons possam caçar o seu mandato. Já que para coloca-lo lá dentro a gente tem q votar, mas para tira-lo o nosso voto não interessa. Isto está errado, mas é a regra do jogo. Eu também venho votando desde 1989 e desisti de votar nessas eleições porque quero ter a experiência de ficar 4 anos sem peso na consciência, um fardo q eu carrego a 16 anos (8 com FHC e 8 com Lula). chega! não aguento mais votar errado. Porém, vou ficar aqui torcendo para que um dia o voto no Brasil não seja mais obrigatório, quando isto acontecer, eu vou votar em todas as eleições e para todos os cargos, pq aí sim eu vou ter certeza que os “analfabetos políticos” não irão votar e meu voto, finalmente, terá de fato força, valor e peso. um forte abraço. @flavionep

  5. zlzjr
    setembro 29, 2010 às 2:08 am

    Flavio,
    Você tem todo direito ao não-exercício do voto conforme a lei permite, com o voto nulo. Entretanto, pensar que quando o voto não for obrigatório os “analfabetos políticos” não votarão, e portanto o seu candidato vencerá, é uma ilusão. Por dois motivos: 1) “Analfabetos políticos” existem de todas as ideologias, e podem não ser exatamente aqueles que votam em outro candidato que não o seu; 2) Mesmo que o voto passe a ser opcional, “analfabetos políticos” poderão continuar com vontade de “cumprir com sua obrigação de cidadão” e continuar votando errado (do seu ponto de vista, é claro).
    Grande abraço!

  6. setembro 29, 2010 às 3:16 am

    Pode até ser Zé Luis, mas eu afirmo que hoje a imensa maioria só vai as urnas por obrigação. Quando o voto for opcional, só irão mesmo às urnas aqueles que estiverem de fato engajados politicamente. o voto será mais qualitativo do que quantitativo. só assim poderemos ter a chance de ter políticos melhores nos 3 níveis do legislativos e executivo.

    • setembro 29, 2010 às 3:53 pm

      FNep,
      Também respeito o seu direito de votar nulo, mas o voto facultativo traz outros tipos de problemas, como o questionamento da legitimidade do poder eleito. Pode-se dizer que “não, porque só não votou quem não quis”; mas, na realidade, é bem mais fácil conseguir que alguém não vá votar – criando-lhe alguma complicação qualquer -, do que conseguir que ela vote em quem você quer. Não deixa de ser manipulação eleitoral.
      É tão complexo rotular quem pode e quem não pode votar (qual o critério específico? qual o fundamento do critério? não seria um fundamento subjetivo?) que eu prefiro não cair nessa tentação.
      Abraço!

  1. setembro 28, 2010 às 9:01 pm

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