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Roberto Nunes

Nada era novo naquela nebulosa manhã de sábado. Fui acordado pelos vizinhos, pelas portas que socavam minha enxaqueca, pelos chinelos que faziam cócegas nos meus nervos, pelas risadas que cutucavam meu tradicional mau humor matinal. Afora nada, era um dia rotineiro, e com uma simplicidade, uma carga, uma força, um carma de naturalidade. A tv não exibia o mesmo programa de ontem à noite, o que era previsível. Fora do lugar, apenas as caixas a serem organizadas. Maldita hora em que resolvi me mudar, ainda sem entender o que me levou a escolher o décimo primeiro andar, numa tentativa inútil de escapar do barulho que aquele trânsito infernal de Botafogo causava. Sempre esperei que as coisas tomassem um rumo próprio, mudassem por si só, sem precisar serem forçadas, empurradas, esfaqueadas, como me esforçava pra que nada em minha vida se alterasse, por conta da minha total incapacidade de notar mudanças. Creio que justamente isso irritou minha ex-mulher. Não sei o que ainda me leva a crer nisso, mas cortar e pintar o cabelo e ainda esperar que eu repare – mais que isso, que eu elogie – já era demais pra minha inutilidade. Se ainda fosse só cortar, talvez eu até notasse. Lembro de todas as ocasiões em que meu pai trocou de carro, mas sei lá quais são as cores. Falando em carro…

E lá vem aquela vontade de fumar um cigarro… Sábado de manhã… Porcaria de costume de não ter dinheiro na carteira! Um cara como eu, que nunca fui assaltado, amedrontado na capital. Saindo do trabalho, lembro que há uma agência ao lado da portaria do prédio. À caminho de casa, julgo que o banco é tão perto que amanhã de manhã eu desço pra sacar dinheiro. Qualquer botequim tem máquina de débito.

Nesse ínterim, algumas nuvens se dissiparam e raios solares timidamente deram às caras. Já pude me livrar das cobertas, mas daí a levantar da cama… era demais! Resolvi me perder na vista da janela e lá estava uma mosca, que quis entrar pela veneziana em seu voo circular. Dentro de suas limitações, ela enxergava o alumínio – onde pousava – mas invariavelmente batia no vidro, que estava lá, e sua incapacidade não a permitia perceber. Ela queria escapar, indo e vindo. O que a limitava era algo tão simples… E como ela podia não se lembrar de como entrou? Flagrei-me imerso em seu mundo. Ela parecia cansada. Pousou no parapeito, de costas para mim. Ficou lá. Estática. E eu, livre das cobertas. Ela precisava de pouco pra se livrar desse suplício. Pra ela, era muito. Quando dei por mim, estava abrindo uma fresta na janela. Ela roçou as patas dianteiras e alçou voo. Nada de nuvens. Céu de brigadeiro.

Quando vesti a bermuda que estava dentro de uma das caixas, achei vinte reais. Pronto. As decisões só dependiam de mim.

Autor: @Abelheira.

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